Na minha época de faculdade de Desenho Industrial, eu costumava observar dois tipos de empreendedores.
Existia um primeiro grupo formado por dois ou três amigos de turma que se empolgavam com a ideia de abrir uma empresa. Viravam sócios, criavam uma marca, alugavam uma sala, montavam escritório, providenciavam CNPJ, cartão de visita, telefone comercial e tudo o mais.
Só depois começavam a procurar clientes para a sua nova agência de design.
Por outro lado, havia um segundo grupo que fazia exatamente o contrário.
Não abria empresa, não alugava sala e não montava estrutura alguma. Começava fazendo uma logo aqui, um folheto ali. Depois aquela logo virava uma papelaria completa. Em seguida surgia um site. Um cliente indicava outro cliente. Os amigos indicavam outros amigos. Aos poucos, novos projetos apareciam.
Até que um dia surgia um projeto maior. Um daqueles clientes que só contratava empresas e exigia emissão de nota fiscal.
Aí sim eles abriam a empresa, criavam um CNPJ e formalizavam algo que, na prática, já estava acontecendo havia algum tempo.
Lembro muito dessa época porque, ao longo dos meus mais de 30 anos de atuação profissional, vi situações semelhantes se repetirem em diferentes mercados, inclusive no e-learning.
Diversas empresas nasceram da iniciativa de profissionais talentosos que saíram de grandes organizações para empreender. Algumas prosperaram, cresceram e se consolidaram. Outras não conseguiram avançar.
Com o tempo, percebi que a diferença raramente estava apenas na competência técnica.
Muitas vezes, ela estava na ordem das coisas.
Alguns começavam pela empresa.
Outros começavam pelo cliente.
E talvez essa seja uma reflexão que continua atual até hoje.
Empreender não é apenas abrir uma empresa. É encontrar um problema real, gerar valor para alguém e construir uma solução que as pessoas estejam dispostas a contratar.
A estrutura é importante.
A marca é importante.
O CNPJ é importante.
Mas tudo isso tende a fazer mais sentido quando existe uma demanda real sustentando a operação.
Isso não significa que exista apenas um caminho. Há empresas que nascem estruturadas, com investimento, sócios complementares e uma estratégia muito bem definida. Muitas delas alcançam excelentes resultados.
Mas, olhando para trás, percebo que uma das lições mais interessantes que aprendi observando aqueles colegas de faculdade foi esta:
Antes de construir a empresa, vale a pena descobrir se já existe um cliente esperando por ela.
E talvez essa lógica faça ainda mais sentido hoje.
Em um mundo onde tecnologia, inteligência artificial e novas ferramentas reduzem barreiras de entrada todos os dias, o diferencial deixou de ser apenas produzir.
O verdadeiro diferencial está em entender o cliente, resolver problemas relevantes e gerar valor de forma consistente.
Porque empresas podem ser abertas em poucos dias.
Mas mercados não são conquistados com a mesma velocidade.
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