Há alguns anos, quando eu gerenciava equipes de produção em uma empresa de e-learning, vivi uma situação que me marcou como líder.
Tínhamos um desenvolvedor web excelente. Ele havia entrado como profissional júnior, crescido junto com a empresa e sempre entregado resultados acima da média.
Mas, em determinado momento, algo mudou.
Ele começou a cometer erros frequentes, perder prazos e apresentar uma queda de produtividade que passou a impactar diretamente os projetos. Como acontece em muitas empresas, os números logo chamaram a atenção da gestão.
Ao analisar os indicadores e os custos envolvidos nos atrasos, meu diretor foi direto:
“Converse com ele. Se nada mudar, vamos precisar substituí-lo.”
Respondi que faria isso, mas pedi que nenhuma decisão fosse tomada antes de entendermos o que estava acontecendo.
Alguns dias depois, aproveitei um momento mais tranquilo e o convidei para tomar um café fora da empresa. Não levei relatórios, métricas ou planilhas. Apenas perguntei se estava tudo bem.
Expliquei que sua mudança de comportamento era perceptível e que eu estava preocupado.
Para minha surpresa, ele se emocionou.
Disse que estava enfrentando problemas familiares e que aquele momento estava sendo muito difícil. Não quis entrar em detalhes, e eu respeitei sua decisão. Apenas perguntei se havia algo que a empresa pudesse fazer para ajudá-lo.
Ele agradeceu, disse que provavelmente eu não conseguiria resolver a situação, mas que se sentia bem por alguém ter perguntado.
No dia seguinte, sua produtividade começou a melhorar.
Pouco tempo depois, ele voltou ao nível de desempenho que sempre havia apresentado.
Quando relatei a conversa com outros gerentes, ouvi uma observação interessante:
“Você é sensível demais. Gerente precisa manter distância da equipe. Não pode virar amigo dos colaboradores.”
E, de certa forma, existe uma parte de verdade nisso.
Liderança não é amizade.
Gestores precisam tomar decisões difíceis, cobrar resultados, dar feedbacks e, em alguns momentos, lidar com situações desconfortáveis.
Mas também acredito que existe uma grande diferença entre manter profissionalismo e ser indiferente.
Principalmente nos mercados de tecnologia, educação corporativa e e-learning, onde falamos diariamente sobre aprendizagem, desenvolvimento humano, engajamento e experiência do usuário, às vezes esquecemos de aplicar esses mesmos princípios dentro das nossas próprias equipes.
Hoje trabalhamos com analytics, dashboards, indicadores de produtividade, plataformas digitais e até inteligência artificial para apoiar decisões.
Tudo isso é importante.
Mas nenhuma dessas ferramentas substitui uma conversa sincera quando um profissional que sempre entregou bons resultados começa a apresentar sinais claros de que algo não está bem.
Nem toda queda de desempenho é falta de competência.
Às vezes, é apenas um ser humano atravessando um momento difícil.
E talvez uma das competências mais importantes da liderança continue sendo exatamente a mesma de anos atrás:
Empatia.
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