Há alguns anos (décadas, para falar a verdade), participei de uma série de treinamentos relacionados à Qualidade Total, ISO 9000, PDCA, Reengenharia de Processos… Eu estava no início da minha trajetória profissional, mas aquele conhecimento acabou me acompanhando por toda a carreira, influenciando minha atuação como funcionário, fornecedor e consultor.
Anos depois, fui contratado por uma empresa com uma missão bastante específica: mapear e documentar todos os seus processos.
O motivo era simples. A empresa crescia rapidamente, conquistava novos clientes todos os meses, mas enfrentava um problema sério. Para cada cinco clientes que entravam, dois ou três acabavam saindo por falhas ao longo da produção dos projetos de e-learning contratados.
O dono da empresa era um excelente vendedor. Conhecia profundamente o mercado, tinha facilidade para abrir portas e conquistar novos negócios. O problema é que estava sempre vendendo. Reuniões, eventos, congressos, visitas comerciais. A operação crescia, mas a casa não estava sendo arrumada na mesma velocidade.
Tudo acontecia de forma muito solta. Existiam profissionais talentosos, mas poucos padrões. Cada área trabalhava de um jeito. Cada projeto seguia um caminho diferente.
A primeira etapa do trabalho foi ouvir.
Preparei entrevistas detalhadas com todos os profissionais da empresa. Do proprietário à equipe operacional. Gerentes de projetos, coordenadores, designers, programadores, designers instrucionais, atendimento, administrativo e financeiro.
Durante semanas, ouvi como cada pessoa trabalhava, quais ferramentas utilizava, quais eram seus desafios, seus clientes internos e suas sugestões de melhoria.
Foi um exercício extremamente rico.
Muitas vezes, os maiores problemas da empresa já eram conhecidos pelos funcionários. Apenas nunca haviam sido organizados, documentados ou discutidos de forma estruturada.
Depois veio a etapa de consolidar todas as informações e mapear os processos. Desde a chegada de uma oportunidade comercial até a entrega final ao cliente.
Fluxos foram desenhados.
Responsabilidades foram definidas.
Ferramentas foram revisadas.
Processos foram simplificados.
Inclusive, uma das etapas mais delicadas foi a criação dos planos de cargos e salários, tema que aparecia constantemente nas entrevistas e que impactava diretamente a motivação e a retenção dos profissionais.
Após alguns meses de trabalho, nasceu um documento robusto de normas e procedimentos, acompanhado de um plano de ação para reorganizar a operação.
Quando apresentamos o resultado para a equipe, a reação foi extremamente positiva. Afinal, aquele material não era fruto da visão de uma única pessoa. Era o resultado da contribuição de todos.
Parecia que o projeto estava concluído.
Mas não estava.
Na verdade, foi naquele momento que começou a parte mais difícil.
Garantir que as pessoas seguissem os novos processos.
Eliminar antigos hábitos.
Criar novos padrões.
Transformar um documento em comportamento.
Foi necessário investir em comunicação interna, acompanhamento, indicadores, treinamento, reconhecimento e melhoria contínua.
Porque um manual não muda uma empresa.
Pessoas mudam empresas.
Hoje, olhando para trás, percebo que essa continua sendo uma das lições mais atuais da minha carreira.
Na época, falávamos de Qualidade Total, ISO 9000 e Reengenharia de Processos.
Hoje falamos de transformação digital, cultura ágil, inteligência artificial e experiência do cliente.
Os nomes mudaram.
Mas o desafio continua praticamente o mesmo.
Empresas não melhoram porque documentam processos.
Elas melhoram quando conseguem transformar esses processos em prática cotidiana.
E isso continua dependendo menos da tecnologia do que muitos imaginam.
No fim, o maior desafio nunca foi desenhar o fluxo ideal. Foi fazer com que as pessoas acreditassem nele e o utilizassem todos os dias.
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