Certa vez, fomos procurados por uma empresa parceira de educação corporativa de São Paulo para apoiar um projeto destinado ao seu principal cliente: uma das maiores empresas de telecomunicações do país.
Essa empresa parceira tinha grande experiência em transformar conteúdos técnicos em infográficos visuais dinâmicos e bem produzidos. Era uma competência que dominavam com excelência.
Mas, dessa vez, o cliente final buscava algo diferente. Em vez de um infográfico, a demanda era desenvolver um jogo on-line.
O tema trazia um desafio adicional: CIPA. Todos os anos, a empresa passava por auditorias rigorosas de segurança do trabalho e buscava uma forma mais envolvente de conscientizar seus colaboradores sobre um assunto obrigatório e, muitas vezes, sensível.
O conteúdo incluía temas técnicos, como prevenção de acidentes com materiais cortantes, uso de equipamentos de proteção individual e riscos relacionados à contaminação por HIV.
Toda a concepção pedagógica, os roteiros e o projeto gráfico já haviam sido desenvolvidos e aprovados pelo cliente. Como o desenvolvimento de jogos não fazia parte do portfólio da empresa parceira, nossa equipe entrou para transformar aquele conceito em uma solução de e-learning totalmente funcional.
Desenvolvemos um jogo cujo cenário reproduzia as próprias instalações da empresa. Em vez de seguir uma sequência tradicional de telas, o participante explorava os ambientes em uma navegação não linear enquanto resolvia desafios relacionados às regras da CIPA.
A principal mecânica de gamificação estava na evolução visual do avatar. Ao cumprir as missões, o jogador encontrava itens espalhados pelo cenário que transformavam sua aparência. Primeiro um capacete. Depois, um colete de proteção. Em seguida, outros equipamentos de segurança.
Ao final da jornada, o personagem que havia iniciado o jogo como um funcionário comum estava completamente equipado, simbolizando visualmente sua evolução ao longo da experiência.
Concluída a navegação, o SCORM registrava o progresso no LMS e liberava uma avaliação final com dezenas de questões randômicas sobre os conteúdos apresentados.
O resultado foi uma experiência bastante diferente dos treinamentos on-line tradicionais, geralmente mais lineares e pouco interativos. O cliente ficou satisfeito, e essa parceria de educação corporativa se estendeu por muitos anos, dando origem a diversos outros projetos criativos.
Esse projeto reforçou uma lição que levo até hoje: o problema raramente está no tema do treinamento. O verdadeiro desafio é criar uma experiência de aprendizagem capaz de despertar o interesse das pessoas, mesmo quando o assunto é obrigatório e altamente técnico.
Hoje, em uma era em que a Inteligência Artificial tornou a produção de cursos mais rápida e acessível, esse projeto continua me lembrando de algo importante: tecnologia acelera processos, mas não substitui a necessidade de compreender o público e desenhar experiências relevantes.
Ferramentas mudam. Processos evoluem. Mas criar soluções que façam sentido para quem aprende continua sendo um dos maiores diferenciais de quem trabalha com educação corporativa.
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