Recentemente assisti a um vídeo do economista Ricardo Amorim, que conheci como comentarista do programa Manhattan Connection e que hoje é um dos maiores influenciadores do LinkedIn. Nele, ele trouxe uma reflexão interessante sobre a maior revolução tecnológica do nosso tempo: a Inteligência Artificial.
Segundo ele, todas as grandes revoluções tecnológicas transformaram profissões, criaram novas oportunidades e mudaram a sociedade de maneiras que ninguém previa. Mas, desta vez, pode haver uma diferença importante: pela primeira vez, os profissionais mais jovens podem ser os mais impactados, porque a IA já consegue executar boa parte das tarefas de quem está começando a carreira.
Essa ideia me fez pensar em uma consequência que talvez ainda estejamos discutindo pouco.
Quando iniciei minha carreira, praticamente toda empresa tinha alguém mais experiente disposto a ensinar. Não era apenas explicar uma tarefa. Era compartilhar contexto, experiência e a lógica por trás das decisões.
Lembro do meu estágio, aos 17 anos, em uma empresa de TI. Um programador sênior, Marconi Moscardini, colocou um livro de D.O.S. nas minhas mãos e disse apenas: “Para começar, leia esse livro.”
Nunca esqueci daquele momento.
Não era só um livro. Era alguém investindo no meu desenvolvimento sem esperar nada em troca. Era conhecimento sendo transmitido de uma geração para outra.
Hoje vejo equipes cada vez mais jovens, extremamente competentes e cercadas de ferramentas capazes de entregar respostas em segundos. Isso é fantástico.
Mas respostas rápidas não substituem repertório.
No mercado de educação corporativa, onde atuo há mais de 30 anos, aprendi que desenvolver pessoas nunca foi apenas ensinar “o que fazer”, mas também “por que fazer”. É essa compreensão que permite tomar boas decisões quando não existe um manual ou um prompt pronto.
Lembrei disso ao recordar a última empresa em que atuei como gestor sênior.
Havia três coordenadores de projetos, todos na faixa dos 25 anos. Um deles tinha o hábito de discutir comigo as decisões mais importantes. Não buscava aprovação. Buscava perspectivas diferentes.
Conversávamos sobre riscos, alternativas e consequências. Depois disso, a decisão era sempre dele.
Ao final do ano, quando os bônus por performance foram distribuídos, ele foi o coordenador mais bem avaliado da empresa.
Não porque perguntava mais. Mas porque aprendeu a decidir melhor.
Não vejo a IA como um problema. Pelo contrário. Ela já aumentou nossa produtividade e continuará transformando a forma como trabalhamos.
Minha preocupação é outra.
Se a Inteligência Artificial assumir cada vez mais as atividades de entrada e, ao mesmo tempo, as empresas perderem os espaços de convivência entre profissionais experientes e iniciantes, podemos formar pessoas excelentes em executar tarefas, mas com menos oportunidades para desenvolver julgamento, senso crítico e capacidade de decisão.
A IA responde perguntas. A experiência ainda ensina a fazer as perguntas certas.
Talvez o maior desafio da nova geração não seja aprender a usar Inteligência Artificial.
Talvez seja encontrar e aproveitar pessoas dispostas a compartilhar aquilo que nenhuma tecnologia consegue acumular: vivências, erros, acertos e décadas de aprendizado.
Essa é a reflexão que ficou comigo.
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