No meu texto anterior, falei sobre uma experiência dos dois anos em que morei em Portugal, onde percebi uma cultura de trabalho orientada à colaboração.
Usei o exemplo de um supermercado, onde as pessoas não se limitavam ao cargo. Se as filas aumentavam, o gerente assumia um caixa para agilizar o atendimento. Se um produto caía no chão e o responsável pela limpeza estava ocupado, outro funcionário resolvia a situação.
A reflexão era sobre uma cultura comum no ambiente corporativo: “eu fiz a minha parte. Se deu problema no projeto, a responsabilidade não é minha”.
Porém, existe um outro lado dessa moeda quando falamos sobre responsabilidade.
Trabalho há mais de 25 anos com gestão de projetos, mas minha formação original é em desenho industrial.
Há alguns anos, no início da minha trajetória como gestor em uma grande produtora de e-learning nacional, surgiu uma situação em que precisávamos criar um projeto de identidade visual (PIV) para uma trilha on-line de um cliente.
O problema era que todo o time estava alocado.
Tentei reorganizar as demandas, mas todos estavam envolvidos em outros projetos. Busquei freelancers, mas ninguém tinha disponibilidade.
Com o prazo avançando e sem encontrar uma solução, lembrei da minha formação e decidi elaborar o PIV.
Apresentei ao cliente, que aprovou de primeira. O problema estava resolvido e o cronograma seguia.
Quando compartilhei a situação com a diretoria, porém, recebi uma importante lição de gestão.
A questão não era eu ter ajudado ou resolvido um problema. O ponto era que eu estava utilizando horas de um gerente para executar uma atividade operacional.
O custo de uma hora minha era muito maior do que o custo de uma hora de um designer. Ou seja, apesar de resolver uma necessidade imediata, aquela decisão não era necessariamente a mais eficiente.
A mensagem foi clara: um gestor precisa estar disposto a colocar a mão na massa quando necessário, mas também precisa entender onde o seu tempo gera mais valor.
Se no primeiro texto eu falava que todos possuem responsabilidade pelo todo, hoje trago uma outra perspectiva: responsabilidade também envolve entender a melhor forma de utilizar pessoas, competências e recursos.
Isso não invalida a importância de uma cultura colaborativa. Ambientes onde ninguém ajuda porque “não é minha função” geram problemas tão grandes quanto ambientes onde todos fazem tudo.
A maturidade profissional está em saber diferenciar os momentos.
Às vezes, a solução exige que você deixe o cargo de lado e ajude diretamente. Em outras situações, o papel do gestor é criar as condições para que a pessoa mais adequada execute aquela tarefa.
Colaboração não significa que todos fazem tudo.
Significa que todos trabalham juntos para que o resultado aconteça, cada um contribuindo com aquilo que gera mais valor.
[Texto anterior no link – https://www.insightso.com.br/o-problema-nao-e-comigo-a-minha-parte-eu-fiz/]
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