Há alguns anos, fomos procurados por uma grande empresa nacional do setor de saneamento com uma demanda que, à primeira vista, parecia simples: desenvolver um treinamento sobre compliance.
O problema, porém, não estava na falta de conhecimento das regras.
A empresa vinha enfrentando diversas situações comportamentais no time de campo que, somadas, geravam um impacto financeiro significativo. Alguns profissionais utilizavam o veículo da empresa para fins pessoais nos finais de semana. Em outros casos, materiais utilizados nas obras não correspondiam ao que era registrado nos relatórios. Eram situações diferentes, mas que tinham algo em comum: comportamento.
Como toda a minha trajetória profissional sempre esteve ligada ao e-learning, minha primeira reação foi pensar em um curso on-line. Parecia o caminho natural.
Mas, durante as reuniões com as equipes de Compliance, T&D e com a coordenação do time de campo, percebemos que aquela talvez não fosse a melhor solução para aquele contexto.
O perfil do público era predominantemente operacional, com pouca familiaridade e baixo engajamento em treinamentos on-line. Mesmo com um bom conteúdo, a chance de adesão seria pequena.
Foi então que surgiu uma ideia diferente.
Em vez de levar as pessoas para uma plataforma digital, resolvemos transformar a aprendizagem em uma experiência presencial.
Criamos um jogo de tabuleiro em tamanho real.
O tabuleiro foi produzido no tamanho de um tapete, os participantes eram as próprias peças do jogo, utilizávamos dados gigantes de espuma e as equipes eram divididas por cores. A dinâmica lembrava um jogo de estratégia, no qual cada equipe precisava conquistar territórios representados por diferentes regiões de atendimento da empresa.
Mas o verdadeiro desafio ainda estava por vir.
As perguntas.
Percebemos rapidamente que não faria sentido criar perguntas objetivas sobre normas de compliance. Junto com as equipes de Compliance, T&D, coordenação do time de campo e nosso time pedagógico, construímos cerca de 40 situações inspiradas no dia a dia daqueles profissionais.
Cada carta apresentava uma situação real, semelhante às que a empresa enfrentava, seguida das possíveis consequências daquela decisão.
A identificação foi imediata.
As discussões surgiam naturalmente durante o jogo porque os participantes reconheciam aquelas situações como parte da própria rotina. O aprendizado deixou de ser apenas uma regra escrita e passou a fazer sentido dentro da realidade deles.
O jogo poderia, sim, ter sido desenvolvido em formato digital. Em muitos projetos, essa provavelmente seria a melhor escolha.
Naquele contexto específico, porém, a experiência presencial tinha muito mais potencial para gerar identificação, discussão e mudança de comportamento.
Essa experiência me trouxe um aprendizado que carrego até hoje.
Quando falamos em inovação na educação corporativa, é comum pensar em Inteligência Artificial, realidade virtual ou plataformas digitais. Tudo isso faz sentido e, em muitos projetos, representa a melhor alternativa.
Mas a tecnologia não deve ser o ponto de partida.
O ponto de partida deve ser entender quem vai aprender, qual comportamento precisa ser desenvolvido e qual estratégia tem mais chances de gerar resultado. Só depois vem a escolha da ferramenta.
Porque a melhor solução de aprendizagem nem sempre é a mais tecnológica.
Ela é a que melhor conecta conteúdo, contexto e perfil do público.
E essa solução pode ser um excelente curso on-line.
Ou pode ser um jogo de tabuleiro em tamanho real.
O importante nunca foi a tecnologia.
Sempre foi a aprendizagem.
E você? Já participou ou conduziu algum projeto em que a melhor solução foi justamente a que ninguém imaginava no início?
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