O problema não é o processo. É o silêncio entre as etapas.

Certa vez, durante a produção de uma mídia para uma trilha de formação, percebi uma tensão na troca de e-mails entre o designer gráfico e a designer instrucional.

Um dizia que o storyboard estava confuso.
O outro respondia que estava claro, mas que havia “má interpretação de leitura”.

O curioso? Os dois estavam na mesma sala, separados por poucas mesas.

Quando percebi o atrito, chamei os dois para uma sala de reunião com o storyboard aberto.

“Vamos lá. Quais são as dúvidas? Vamos resolver isso agora.”

Em poucos minutos, tudo foi esclarecido. Ajustes feitos. Problema resolvido.

Mas, naquele momento, me veio uma sensação estranha: a de estar atuando como um “tio da escola”, forçando uma conversa que deveria ter acontecido naturalmente.

E aí está o ponto.

Em teoria, projetos de e-learning bem estruturados têm momentos claros de “passagem de bastão”.

Storyboard aprovado? Projeto gráfico validado?

Então deveria existir uma conversa direta entre quem desenhou a solução e quem vai executá-la.

Não só para explicar o que foi feito, mas principalmente o porquê das decisões.

Só que o mundo real não funciona tão linear assim.

Em projetos acelerados, muitas vezes pressionados por prazos irreais, vendas mal dimensionadas ou demandas urgentes, essas etapas são encurtadas ou simplesmente ignoradas.

E, mesmo quando existem, algo ainda falha depois: as pessoas param de se comunicar.

E aqui começa o problema que continua muito atual (talvez até mais hoje do que antes): em ambientes de produção de e-learning, CSCs e operações digitais, o fluxo é contínuo, distribuído e multidisciplinar.

Se o designer não entende um ponto do storyboard e, em vez de perguntar, “interpreta”, ele segue adiante.

E a interpretação vira decisão.

E a decisão vira retrabalho.

E o retrabalho vira atraso.

E o atraso vira desgaste.

Tudo isso por algo simples: falta de conversa no momento certo.

Hoje, com times híbridos, produção distribuída, CSCs centralizando processos e até IA acelerando entregas, a comunicação deixou de ser um “detalhe de projeto”.

Virou infraestrutura crítica.

O gerente de projetos não controla tudo (e nem deveria).

Mas ele influencia profundamente o sistema quando cria o ambiente certo:

  • onde dúvidas podem ser feitas sem receio
  • onde a conversa é mais rápida que o e-mail
  • onde ninguém precisa “assumir que entendeu” sozinho

No fim, não é sobre ferramenta, nem sobre metodologia.

É sobre algo mais básico, e mais difícil de sustentar: as pessoas realmente se falando enquanto o trabalho acontece.

Simples. Mas ainda decisivo.

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Alexandre Collart

Alexandre Collart atua há mais de 30 anos no mercado de educação corporativa, e-learning e comunicação digital, sendo reconhecido por sua experiência na criação, gestão e implementação de projetos de aprendizagem para empresas de diferentes segmentos e portes, com foco em desenvolvimento de pessoas, disseminação do conhecimento e soluções educacionais alinhadas às necessidades do negócio.

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